Mulheres conquistam autoridade máxima nas embarcações que cruzam a Baía de Guanabara

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Tripulação feminina. Caroline Zotto, Karla Gonçalves , Elenilsa dos Santos, Ana Claudia Tavares e Karina Santana são da tripulação com o maior número de mulheres das barcas - Agência O Globo

Atualmente, 14 são pilotas na travessia Rio-Niterói

Por Priscilla Aguiar Litwak

NITERÓI – Nunca se falou tanto em empoderamento feminino. Ao lutarem pela desconstrução de padrões, mulheres conquistam postos de trabalho que até então eram tradicionalmente ocupados por homens. Na Marinha Mercante, por exemplo, em 2001, havia apenas três mulheres na turma de formandos do curso de náutica da Escola de Formação de Oficiais (Efomm) do Centro de Instrução Almirante Graça Aranha, no Rio. Em 2016, 15 anos depois, esse número subiu para 32. Isso significa que mais mulheres estão habilitadas a comandar embarcações no Brasil. Por aqui, quem costuma usar as barcas para atravessar a Baía de Guanabara já deve ter percebido que as vozes femininas que saúdam os passageiros a cada viagem estão, a cada dia, mais constantes.

A CCR Barcas conta atualmente com 57 tripulantes mulheres. Destas, 14 estão aptas a pilotar as embarcações (pilotos homens são 64, de um total de 78). De acordo com o gestor de operações náuticas da concessionária, Diego Félix, houve na empresa um aumento no número de mulheres, incluindo comandantes, embora não haja um registro desse número. Félix destaca o senso de organização das mulheres e ressalta que elas ocupam outros cargos além de comandantes, como de marinheiras, de supervisoras e de gestora de operações. O gestor frisa, porém, que o sexo do profissional não determina uma contratação; o que conta é a experiência.

— A empresa está extremamente satisfeita com o trabalho desempenhado por suas colaboradoras, mas não há distinção, todos passam por um processo de seleção em que são avaliados, além de aspectos pessoais, suas qualificações técnicas e curriculares. Toda capacitação marítima dos tripulantes é realizada através de cursos ministrados pela Marinha do Brasil, que fornece a Carteira de Inscrição e Registro (CIR), documento obrigatório para desempenhar a função — explica Félix.

PAIXÃO PELO MAR

Caroline Zotto, de 34 anos, é uma das comandantes das barcas. Ela conta que desde pequena desejava trabalhar em alguma profissão ligada ao mar, por isso formou-se em Oceanografia. Na função de oceanógrafa, chegou a ficar embarcada algumas vezes para realizar pesquisas. Foi quando se encantou pela pilotagem e decidiu se especializar na área, fazendo o curso de náutica da Efomm. Hoje, como segundo oficial, Caroline conduz as embarcações que fazem a travessia Rio-Niterói com a ajuda de outras quatro colegas, numa tripulação com o maior número de mulheres da concessionária, que tem 50% do efetivo feminino. Juntas, fazem, ao menos, oito viagens por dia entre as duas cidades.

— Sempre gostei muito dessa ligação com a natureza, de acordar e ver o mar, ver peixes, golfinhos… Por isso, decidi ingressar nessa carreira. Mas não foi fácil. Além de exigir muito estudo para eu me formar, fiquei um ano longe da minha família. Já formada, fui durante três anos pilota de longo curso e precisava ficar embarcada por muito tempo. Por isso, por saudade da família, decidi procurar um trabalho que me oferecesse o que eu buscava, que era estar no mar, e ao mesmo tempo me permitisse voltar para casa todos os dias — conta Caroline, que está há seis meses na CCR Barcas.

Em ação. A comandante Caroline Zotto pilota a embarcação no trajeto Niterói-Rio – Ana Branco / Ana Branco

A comandante conta que apesar de as viagens serem bem mais curtas do que as que costumava fazer no trabalho offshore, elas exigem ainda mais dedicação:

— A cada viagem, são duas mil vidas sob minha responsabilidade. Além disso, trabalhamos numa área de tráfego intenso, com os portos do Rio, de Niterói, barcos pesqueiros, à vela… Aprendemos muito na Marinha, mas de uma forma geral; aqui aprendemos sobre as especificidades das embarcações, o clima local, como lidar com as pessoas, com condições adversas.

E preconceito, ainda existe? Caroline diz que sim, sobretudo fora do país.

— Os muçulmanos, por exemplo, não aceitam o trabalho com mulheres. Sabendo disso, os recursos humanos nem contratam para evitar problemas. Em algumas embarcações, os camarotes onde dormimos são compartilhados, então, para não ter que misturar homens e mulheres ou ter um trabalho maior, só são contratados homens. O preconceito existe e ainda enfrentamos muitas barreiras. Por isso, temos que nos preparar mais que os homens muitas vezes para ocupar o mesmo cargo. Esse não é o caso das barcas evidentemente, até porque não lidamos diretamente com o público e não precisamos dormir embarcados, felizmente — pondera.

A mestre de cabotagem Elenilsa dos Santos Conceição, de 36 anos, divide o comando das embarcações com Caroline na mesma tripulação. Com 18 anos de carreira e 16 anos nas barcas, Elenilsa passou por diversas funções nos serviços da concessionária antes de virar comandante. Ela trabalhava para uma empresa, panfletando na estação das barcas, quando se encantou pela profissão de comandante — ao ver as embarcações atracando e partindo — e resolveu estudar para realizar o seu sonho. Há quatro anos ela conduz as embarcações da concessionária.

Assim como Caroline, Elenilsa aponta como o principal benefício de trabalhar na concessionária poder voltar todos os dias para casa, diferentemente do ambiente de confinamento do trabalho offshore.

— A carreira é um sonho, mas é complicado quando precisamos abrir mão de muitos momentos em família. Nas barcas, não vivemos esse problema que é um dos maiores da profissão — avalia Elenilsa.

A contramestre Fabiane Fontes, de 28 anos, que pilota as embarcações da concessionária há dois anos, complementa a colega:

— Além de ter tempo para família, não ficar embarcado permite aos tripulantes estudar para seguir avançando em sua qualificação.

Por Portal da Navegação, via O GLOBO.

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