Por que indústria naval deve ser forte

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Se encomendas não forem feitas no Brasil, serão em Cingapura, Coreia, China, Japão etc., criando empregos lá e desempregando aqui. Simples assim

Por Omar Resende Peres

Foi na Ponta da Areia, em Niterói, que Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, fundou o primeiro estaleiro do Brasil, no Império. No século XX, o regime militar deu grande impulso ao setor, e o Brasil se tornou, nos anos 70, o segundo produtor de navios do mundo. No mesmo período, começamos o desenvolvimento tecnológico para a construção de plataformas de exploração de petróleo. Esse desafio nos tornou líderes e recordistas mundiais na exploração de petróleo em águas profundas, atingindo o recorde de sete mil metros de lâmina d’água, na Bacia do Pré-Sal.

Só isso já seria suficiente para incentivar nossa indústria naval, imprescindível para a indústria do petróleo. Mas o Brasil oferece outras razões para apoiar esse setor fundamental para a economia do Rio (e para o país), não deixando que desapareça a atividade que pode recriar, rapidamente, milhares de empregos.

São quatro premissas fundamentais para que qualquer governo, independentemente do matiz ideológico, entenda a importância estratégica da indústria naval e reveja sua posição, mantendo a política de conteúdo local:

1) temos um parque industrial que custou bilhões de dólares em financiamento público;

2) temos mão de obra qualificada e tecnologia nacional disponíveis. Não se forma gente qualificada de um dia para o outro, e hoje somente em Niterói e região calcula-se haver mais de 50 mil as pessoas demitidas pelos estaleiros;

3) recursos financeiros disponíveis através do Fundo de Marinha Mercante e, por fim, o mais importante;

4) demanda não induzida. Em outras palavras, o Brasil precisa de todos os tipos de embarcações e equipamentos para a exploração de nosso petróleo (navios, plataformas, barcos de apoio etc.). Neste caso, não estamos criando encomendas! Elas existem e são imprescindíveis para as petroleiras. Se não forem encomendadas no Brasil, serão em Cingapura, Coreia, China, Japão etc., criando empregos lá e desempregando aqui. Simples assim.

A principal alegação da Petrobras é que “nossos estaleiros não entregam nos prazos contratados e que, aqui, os produtos finais são mais caros”. Isso está longe de ser verdade e, para tirar a dúvida, a Petrobras poderia publicar os preços das plataformas e outros equipamentos que comprou fora do Brasil nos últimos 20 anos e compará-los com os similares brasileiros. A estatal poderia dizer também quanto gasta, anualmente, em afretamento de plataformas, navios e todos os demais equipamentos.

A pressão das empresas internacionais que exploram petróleo em nosso país para acabar com o conteúdo local tem um só objetivo: comprar e importar os equipamentos de seus próprios países, criando empregos e renda para seus nacionais (e com muito subsidio!), em detrimento de nosso desenvolvimento e à custa do desemprego de milhares de brasileiros.

E assim fazem todos os países que têm políticas para defender o emprego e a renda de suas economias: “Primeiro eu, depois nós…” Dou como exemplo o jovem presidente francês, Emmanuel Macron, para muitos brasileiros o símbolo da modernidade. Pois saibam, então, que ele acaba de estatizar o STX, o principal estaleiro francês, para evitar que a empresa seja comprada pela estatal italiana Fincantieri. Diz o ministro da Economia da França, Bruno Le Maire: “O único motivo da estatização é defender os interesses estratégicos franceses na construção de navios” .

Esse é um bom exemplo a ser seguido pelo governo brasileiro e pela Petrobras: modernidade na gestão da coisa pública e dos interesses do Estado é também sinônimo de defesa do mercado, do emprego e das riquezas de nosso país. No Brasil, não precisamos estatizar estaleiros. Basta sermos um pouco mais brasileiros.

Omar Resende Peres é empresário e foi presidente do Sindicato da Indústria Naval Brasileira

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