Mesmo no Amazonas, transporte pelos rios é tratado com descaso pelo governo

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Dickson Jacaúna Rodrigues, gerente de embarcação:

Dependente do transporte por rios, o maior estado do Brasil é um retrato do desdém de governos com as hidrovias ao longo das últimas décadas

LC Luiz Calcagno

Manaus (AM) — No Amazonas, o trajeto que se percorre com um litro de combustível é muito maior que em qualquer outra unidade da federação. Isso porque o estado, que reflete em seu superlativo as distâncias do Brasil, com 1,5 milhão de km², é detentor do maior rio navegável do país e milhares de outros afluentes. As mudanças de estação não interferem na navegabilidade do Rio Amazonas. E, segundo um levantamento da Câmara de Comércio Marítimo Canadá/Estados Unidos, com essa mesma unidade de medida de diesel, uma embarcação viaja 208km mais longe que um caminhão (leia mais sobre o assunto). Tanto é que, dos 101,5 milhões de toneladas de cargas em 2018, a região transportou mais da metade.

A quantidade de gramas de gás carbônico produzido por km percorrido com carga equivalente a uma tonelada também é favorável às embarcações. São 33,4g de CO2 contra um caminhão que, nas mesmas circunstâncias, produz até 164g. Apesar disso, a emissão de CO2 na região é alta, principalmente pelo desmatamento da floresta amazônica. Mesmo com características geográficas que, mais do que favorecem, obrigam o investimento em navegação, o modal da região está longe de ser um exemplo para o resto do país. Um dos motivos é a falta de portos.

E mais, além do transporte de cargas, existe outra modalidade de navegação indispensável para a região, que é o transporte de pessoas e produtos para municípios ribeirinhos. Parte das cidades amazonenses só pode ser acessada pelos rios. Quem faz esse transporte são os proprietários de barcos particulares, que têm os flutuantes como empresas e não contam com nenhum incentivo para melhorarem os serviços. O acesso a portos, mesmo na capital, Manaus, é precário.

Disputa por espaço

Na região conhecida como Manaus Moderna, no centro de manaus (AM), o acesso às embarcações é feito por balsas ancoradas à orla. Barcos de transporte disputam espaço ao redor de cada um dos flutuantes. Quiosques oferecem salgados, cerveja, refrigerante e música alta. Qualquer um entra, qualquer um sai. Inclusive crianças desacompanhadas, o que gera queixas por parte de proprietários, gerentes e capitães. Carregadores passam a todo momento com caixas, colchões, eletrodomésticos e sacas de víveres que disputarão espaço lado a lado no porão, e até no convés dos navios.

Gerente da embarcação Cidade Nhamundá IV, Dickson Jacaúna Rodrigues, 53 anos, afirma que é preciso ficar atento antes de partir. O risco é de ser parado por uma embarcação do Conselho Tutelar, por exemplo, atrasar a viagem e ainda ter que se explicar para a Justiça. “Uma das melhorias que precisamos muito é o do acesso, essa região é chamada de Manaus Moderna, mas não tem nada de moderno. É terrível, sem estrutura.O acesso é livre para quem quiser. É tudo muito malcuidado”, observa. “Precisamos desse investimento. O transporte fluvial é o mais utilizado pela população. Tirar isso seria como interditar todas as vias de uma cidade”, compara. “Fora isso, as viagens são boas. Com vento no rosto e proximidade com a natureza”, pondera o administrador.

Controle ruim

Empresária do ramo de embarcações, Natali Zanish, 42 anos, concorda. “Com o acesso que existe hoje, o controle é muito ruim. Consequentemente, a fiscalização, também. Os fiscais só aparecem para multar. Mas não fazem nenhum trabalho preventivo. O conselho tutelar, por exemplo, nunca está nos portos. Se passa uma criança e não vemos, nos param no meio do rio. É aquele transtorno. Mas ninguém ajuda com o controle”, explica.

Passageiros sentem na pele a falta de investimento. “A lei de oferta e procura é desvantajosa para quem vive aqui”, reclama a universitária Andel Civanie, 19 anos. Os pais dela, a autônoma Fátima Gomes da Silva, 48 anos, e Adrino Rebelo, 55 anos, moram em Tapauá, a três dias de viagem de Manaus. Fátima explica que paga R$ 150 por pessoa por trecho para ver a filha. Ela explica que teria que pagar o dobro para usar uma lancha rápida, mas não tem condições financeiras para isso. “A gente vem com mala, comida e a rede. As viagens são lentas. Como tudo depende dos barcos, acaba ficando mais caro”, lamenta.

Por Portal da Navegação, via Correio Brasiliense.

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