Histórias de mulheres na praticagem: profissão tem só 2,2% de força de trabalho feminina

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Vanessa Zamprogno, que atua na praticagem, no porto do Recife Foto: Leo Malafaia

Faz dez anos que a primeira mulher foi certificada pela Marinha para manobrar navios em portos brasileiros

Talita Duvanel

O navio de guerra da Marinha americana USS McFaul se aproximava do Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, em 2015, e Débora Gadelha era pura ansiedade. Como toda grande embarcação que entra na costa brasileira e quer estacionar num cais, o contratorpedeiro precisaria da ajuda de um prático, nome que se dá ao profissional responsável por manobrar os barcos nos portos e evitar acidentes. Débora torcia para ser a escolhida para acolher o destroyer, pois operar o navio seria um marco em sua carreira. “Eu ficava pensando em como eles iam me receber, como é o tratamento da mulher pela Marinha americana”, lembra a carioca de 38 anos, que teve a sorte de ser o prático da vez na hora da chegada do USS McFaul. “No final da manobra, o comandante até me deu uma medalha.”

O presente se juntou a outra marca de orgulho: Débora foi a primeira prático do sexo feminino, há exatos dez anos, a ser certificada pela Marinha para a função. Ela faz parte do reduzido número de 14 mulheres num universo de 635 profissionais desse tipo, espalhados por 22 zonas estabelecidas pela Marinha (é a organização que regula a profissão, mas todos são autônomos). Na conta, a praticagem brasileira tem ínfimos 2,2% de mulheres, e esse abismo ajuda a justificar a tensão inicial de subir num navio desconhecido. A profissão, como a maioria relacionada a assuntos marítimos, ainda é majoritariamente masculina. Mas, finalmente, mesmo que aos poucos, o sexo feminino vem conquistando espaço.

Débora Gadelha no porto de Rio Grande Foto: Guga Volks

Formada em Matemática, Débora fez o concorrido processo seletivo em 2008, mas só foi certificada pela Marinha em 2010, depois dos usuais estágios probatórios. Antes dela, houve até outras aprovadas no exame teórico de 2006, mas nenhuma concluiu todo o caminho para o reconhecimento. No entanto, as primeiras candidatas apareceram em 1999, 191 anos depois de a praticagem começar a ser exercida no Brasil, com a abertura dos portos às nações amigas por D. João VI.

Aprovada em 2011 e certificada em 2012, a capixaba Vanessa Zamprogno, de 33 anos, da zona de Recife e Suape, em Pernambuco, acha que a desinformação é o principal motivo da baixa participação feminina na área. “Falta divulgação, elas não conhecem a profissão. Porque o trabalho, para mulher ou homem, não tem diferença”, diz ela, que deu uma parada nas manobras por estar grávida de 5 meses.

De fato, o ofício de um prático passa longe do faro do grande público. Figura presente no mundo inteiro, esse profissional precisa ter vasto conhecimento náutico(no entanto, é possível atuar com qualquer diploma de curso superior, contanto que haja aprovação em todas as etapas classificatórias), de meteorologia e dos mínimos detalhes do solo da região onde atua. Por isso, transferências são impossíveis. Uma vez aprovado para determina área, só é possível sair dela se outro concurso for prestado do zero. É o que fez a paranaense Vanessa Moraes, de 35 anos, com dois processos seletivos bem-sucedidos na conta. Em 2011, encarou a primeira prova e, no ano seguinte, começou a atuar em Natal. Para ficar mais perto da família, tentou tudo de novo e conseguiu ingressar em Paranaguá, sendo a única mulher entre mais de 30 homens. Oriunda da marinha mercante, Vanessa foi piloto de navio-tanque por quatro anos antes de mudar de posição na cadeia marítima. Costumava passar dois meses embarcada e dois em terra firme, até quese cansou da instabilidade. Fez um pé de meia e entregou seu quepe para poder se dedicar totalmente aos estudos, coisa que todos os candidatos costumam fazer. “Você precisa ser bastante focada na preparação. Embora tivesse formação marítima, tive que rever as matérias com muita intensidade”, relembra Vanessa. “Após a fase teórica, tem a oral, uma simulação de manobra na frente de outros práticos. Dá muita tensão mostrar para quem sabe. E ainda tem a parte física, que exige bastante.”

As mulheres costumam lembrar com pouca saudade dos treinos para o momento mais assombroso do périplo: a realização de quatro movimentos completos na barra fixa. Elas precisam executar a tarefa com a mesma excelência que os homens. Não tem colher de chá, o que as práticos nem acham necessário, porque na hora do ‘vamos ver’ a exigência é grande mesmo. Com até cinco manobras por dia de serviço, é preciso estar apta a subir com maestria as escadas de corda, que podem chegar ao equivalente a seis andares de um prédio, da lancha de apoio até a plataforma das embarcações que vão manobrar.

Esse vai e vem entre lancha, escada e navio põe a profissão no rol das de alto risco. Coloque aí também as mudanças climáticas, que costumam surpreender principalmente os profissionais do Sul do país, onde o tempo fica mais sujeito às oscilações das frentes frias. “Já passei por situações em que o navio perdeu o controle. Às vezes, você vai fazer uma manobra numa condição climática e rapidamente ela muda”, diz Vanessa Moraes. “Nossa profissão precisa de equilíbrio emocional e desembaraço, já que lidamos constantemente com o inesperado.”

A remuneração, elas dizem, costuma ser condizente com os perigos e as responsabilidades envolvidas numa manobra, mas, quando o papo é dinheiro, fica difícil avançar. O Conselho Nacional de Praticagem não revela médias salariais porque elas “podem variar muito de um mês para o outro, dentro de uma mesma zona de praticagem e entre regiões distintas”, mas fontes ouvidas pela reportagem dizem que, no Porto do Rio, uma manobra custa em torno de R$ 15 mil. Na época do concurso de 2012, o último a ser realizado pela Marinha, a imprensa noticiou que se podia ganhar entre R$ 60 mil e R$ 130 mil num bom mês.

Vanessa das Graças Moraes (de roxo), no porto de Paranaguá Foto: Arquivo pessoal

A entrada delas na profissão há tão pouco tempo levou até as zonas de praticagem assuntos que outrora nem eram debatidos. Licenças-maternidade, por exemplo, começaram a ser discutidas localmente com a chegada das pioneiras. Organizadas num grupo de WhatsApp batizado de “Mammy Pilots” (pilots é prático, em inglês), elas costumam compartilhar as dores e as delícias não só da maternidade como da profissão. E um dos assuntos acaba sendo o machismo dos velhos lobos do mar.

Nas zonas de praticagem, elas lembram, foram bem recebidas e até mimadas, mas muitas tripulações duvidaram, e ainda duvidam, de suas capacidades. Não raro, comandantes arregalam os olhos quando veem uma mulher subindo as usualmente desgastadas escadas de corda dos navios. “Existe a dúvida, o susto, a surpresa, mas ajo de forma natural. Quando a postura extrapola o limite de aceitação, me posiciono”, diz Vanessa, antes de relembrar um episódio de mal-estar a bordo. “Quando estávamos nos aproximando do cais, um comandante falou: ‘Agora quem vai concluir a manobra sou eu’. Respondi: ‘O senhor vai ter que me dar motivos técnicos que justifiquem essa decisão, então’. Ele olhou para mim, ficou em silêncio e continuei.”

Débora já teve comandante puxando sua mão e outros tantos tentando agradar com frases que saíram pela culatra. “Você manobra que nem homem” ou “até que, para mulher, você faz direitinho” são algumas das pérolas que já ouviu. “Uma vez, entrei numa embarcação estrangeira e o comandante falou: ‘Tem mulher aqui? Que bagunça. No meu país, elas se casam e cuidam do lar’. Respondi: ‘Pois é, aqui nós trabalhamos para sermos donas do nosso próprio destino e não termos que casar com gente como o senhor.’”

As milhas da profissão já fazem com que elas tenham respostas para tudo, menos para a questão: é a prática ou a prático? “É difícil porque não existe no dicionário, então fala como você achar melhor”, brinca Vanessa Zamprogno. O professor de língua portuguesa Sérgio Nogueira concorda: “Não é uma discussão de certo ou errado. Existem três possibilidades: o prático, a prático e a prática. Se pegar, pegou, é uma questão de tempo.”

Por Portal da Navegação, via O GLOBO.

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