ENTREVISTA – vice-almirante Valter Citavinicius Filho.

0
130

O Portal da Navegação, através do repórter-fotográfico Luis Celso Borges, entrevistou o vicealmirante VALTER CITAVICIUS FILHO, Paulista, 56 anos, Comandante do 4º Distrito Naval. Acompanhe abaixo a entrevista:

IQual a área de atuação do 4º Distrito Naval?

O Comando 4° Distrito Naval é um dos nove Distritos Navais do Setor Operativo da Marinha do Brasil (MB). Sua área de jurisdição corresponde a aproximadamente 23% do território nacional, compreendendo os Estados do Amapá, Maranhão, Pará e Piauí, o que inclui cerca de 1.667 quilômetros de extensão litorânea e 5.556 quilômetros de vias fluviais navegáveis.

II – Um pouco de sua história até chegar ao Comando do 4º Distrito Naval.

Nasci na cidade de São Paulo, em 30 de março de 1964. Aos 18 anos, fui aprovado em concurso público para a Escola Naval. Em 1985, depois de quatro anos de formação militar-naval, conclui o ensino superior em Ciências Navais e fui declarado Guarda-Marinha.
Ao longo da minha carreira, realizei muitos cursos e tive a oportunidade de ocupar cargos e funções em diversas Organizações Militares, entre os quais destaco:

Em 1990, apresentei-me na Fragata “Liberal” onde servi por cinco anos, atuando, dentre outras atribuições, como Chefe do Departamento de Máquinas.

Em 1º de março de 1995, no posto de Capitão-Tenente, passei a integrar o Grupo de Recebimento da Fragata “Greenhalgh”, em Londres, na Inglaterra.

Já como Capitão de Corveta, de julho de 2000 a julho de 2001, comandei o Navio Patrulha Fluvial “Amapá”, em Manaus-AM. Foi uma experiência ímpar e muito gratificante poder navegar nos rios da Amazônia pelos mais longínquos rincões deste País, realizando patrulha naval e inspeção naval para a repressão de ilícitos e de crimes transnacionais, bem como participar de atividades subsidiárias, como as ações cívico-sociais.

No ano de 2003, fui Assessor no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, que me proporcionou um grande aprendizado ao tratar de assuntos de cunho estratégico para o País.

De fevereiro de 2005 a fevereiro de 2007, exerci a função de Oficial de Ligação da Marinha do Brasil junto ao Comando-em-Chefe da Esquadra do Atlântico da Marinha dos Estados Unidos da América.

Como Capitão de Mar e Guerra, comandei o Navio de Desembarque de Carros de Combate “Alte. Saboia”, de maio de 2011 a maio de 2013. Trata-se de um meio naval empregado no transporte de tropa e de carga em Operações Anfíbias, Ribeirinhas e de Apoio Logístico Móvel. Realizei importantes comissões no “Alte. Saboia”, entre as quais destaco as três Comissões ao HAITI para realizar o apoio logístico ao contingente brasileiro da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH), e duas ASPIRANTEX, cuja a finalidade é familiarizar os Aspirantes da Escola Naval, militares em formação, com a rotina de um oficial embarcado, praticando diversos exercícios e simulações navais.

Ao passar o Comando do Navio “Almirante Saboia”, fui designado para o cargo de Chefe de Gabinete do Diretor-Geral do Pessoal da Marinha. Nesta ocasião, conheci mais detalhadamente as atividades relacionadas à carreira do Pessoal Militar e Civil da Marinha e aos Sistemas de Proteção Social dos Militares, de Saúde, de Assistência Social e Religiosa, entre outros.

Em 31 de março de 2014, fui promovido ao posto de Contra-Almirante, sendo o meu primeiro cargo como Oficial-General o de Diretor do Pessoal Civil da Marinha. Foi muito gratificante, pois me permitiu conhecer e contribuir com ações voltadas para a carreira dos servidores civis, homens e mulheres que desempenham tão importantes funções e cargos tão significativos na MB.

O ano de 2016 foi muito importante para mim. Fui escolhido para comandar a 1ª Divisão da Esquadra. Para um Marinheiro que passou cerca de vinte anos de sua carreira percorrendo a praça de máquinas, conveses e passadiços dos navios da MB, ser Comandante de uma Organização Militar da Esquadra Brasileira foi motivo de grande realização profissional.

Depois, no ano de 2017, fui exercer meu terceiro cargo como Contra-Almirante, o de Diretor de Assistência Social da Marinha. Lá pude desenvolver atividades voltadas para a qualidade de vida dos militares e servidores civis da MB, ativos e veteranos, bem como de seus dependentes e pensionistas. Em 25 de novembro de 2018, ainda na Diretoria de Assistência Social da Marinha, ocorreu a minha promoção ao posto de Vice-Almirante.

Já no início de 2019, fui designado para o Ministério da Defesa (MD) em Brasília-DF. Onde exerci os cargos de Diretor dos Departamentos de Promoção Comercial e de Ciência, Tecnologia e Inovação, ambos na Secretaria de Produtos de Defesa daquele Ministério. Desde o dia 3 de abril deste ano, exerço o cargo de Comandante do 4º Distrito Naval. Estou muito feliz pela oportunidade de retornar à região Norte e de poder contribuir para o desenvolvimento das tarefas da Marinha do Brasil nestes quatro importantes Estados brasileiros que compreendem a nossa área de jurisdição: Amapá, Maranhão, Pará e Piauí.

III – Os projetos do Almirante Newton de Almeida Costa Neto, seu antecessor, terão continuidade?

Afirmativo. O Almirante Newton deixou um grande legado que não poderia deixar de ser levado à frente. Não só os projetos relacionados à nossa área de atuação, mas também os projetos sociais, como os desenvolvidos em conjunto com a Sociedade Amigos da Marinha (SOAMAR), dos quais destaco o projeto “Maré do Saber”, que já arrecadou 21 mil livros e distribuiu cerca de 5.300 para crianças e adolescentes das populações ribeirinhas, até a interrupção das atividades devido à pandemia.

IV – Alguma previsão para novos projetos ‘pós covid-19’?

Ainda é muito difícil fazer qualquer tipo de previsão para o período pós-COVID-19. Mas, como nos ensina a história, os momentos de crise deixam grandes legados. Assim, creio que as instituições públicas e privadas precisarão se ajustar a novos protocolos de saúde e também identificar novas oportunidades. Em face disso, nos manteremos firmes, dando continuidade ao cumprimento de nossa missão, bem como estamos preparados para os desafios e novos projetos que período pós-COVID poderá nos demandar.

V – Quais as ações do 4º Distrito Naval no covid-19?

Após o Governo Federal acionar o MD para atuar na coordenação e no planejamento do emprego das Forças Armadas no combate à COVID-19, aquele Ministério ativou o Centro de Operações Conjuntas, em Brasília-DF, como também, dez Comandos Conjuntos, que cobrem todo o território nacional, além do Comando Aeroespacial, de funcionamento permanente. Desta maneira, cabe ao Comando Conjunto Norte o gerenciamento das atividades desenvolvidas em nossa região com a participação das três Forças Armadas.

Desde a ativação do Comando Conjunto Norte, o Comando do 4º Distrito Naval e suas Organizações Militares subordinadas já promoveram diversas ações de cunho social e operativas para mitigar as consequências do novo coronavírus e até mesmo prevenir e evitar o contágio, entre as quais enfatizo: a descontaminação de unidades de policiamento e de saúde do Estado do Pará e de aproximadamente 180 viaturas utilizadas por estas instituições, bem como de outros órgãos públicos que continuam realizando atendimento para a sociedade. Também foram descontaminados locais públicos de grande circulação como aeroporto, terminal hidroviário, pontos de ônibus e feiras livres de rua a fim de reduzir a proliferação do novo coronavírus.

Ressalto, ainda, os cursos e adestramentos em Descontaminação Biológica promovidos pelo 2º Batalhão de Operações Ribeirinhas com objetivo de capacitar militares das outras Forças Armadas e Auxiliares, agentes e servidores civis de órgãos de saúde e segurança pública. Desde março, mais de duzentos militares e civis receberam instruções teóricas e práticas de prevenção ao vírus e de combate às ameaças Nuclear, Biológica, Química e Radiológica.

Já no âmbito social, o Com4ºDN distribuiu cestas básicas para mais de trezentas famílias de alunos beneficiados pelo Programa Forças no Esporte (PROFESP), do MD. Antes da pandemia, nossas Organizações Militares desenvolviam ações, no contraturno escolar, com crianças de adolescentes, de seis aos dezoito anos, em situação de vulnerabilidade social para promover a valorização da pessoa, reduzir riscos sociais e fortalecer a cidadania por meio do acesso à prática de atividades esportivas e socialmente inclusivas. Entretanto, com a COVID-19, os trabalhos foram suspensos temporariamente para evitar aglomeração e contágio e, para amenizar os impactos sociais, os recursos destinados ao Programa foram readequados para compra de alimentos e, assim, ajudar aqueles que mais necessitam.

Ainda no campo social, cabe ressaltar o gesto solidário de muitos militares da Marinha que, conscientes da redução no estoque de banco de sangue devido ao isolamento social, aderiram, voluntariamente, às campanhas de doação de sangue.

Por falar em campanhas e conscientização, a Marinha está atuando em orlas de praias e rios e em terminais hidroviários, orientando os passageiros e tripulantes de embarcações sobre as formas de prevenção à COVID-19 com o intuito de diminuir a probabilidade de contaminação das comunidades ribeirinhas. Estas ações de levar informação de utilidade pública para a população também ocorreram durante as Inspeções Navais na área de jurisdição do Com4ºDN. Quanto mais estivermos informados, mais preparados estaremos para lidar com esta adversidade.

VI – Como está sendo a expectativa de servir na Amazônia?

Minhas expectativas são as melhores. Comandar o 4o Distrito Naval é um grande desafio, mas também um grande privilégio, dada a considerável extensão territorial, marítima e fluvial e a relevância estratégica de sua área de jurisdição.

VII – O que a comunidade marítima e o povo da região Norte, pode esperar do vice-almirante?

Uma grande motivação para continuar o excelente trabalho que a Marinha já vem desenvolvendo em prol da sociedade, por meio de diversas atividades como as de segurança do tráfego aquaviário, patrulha naval, apoio à população nas ações cívico-sociais, entre outras. Neste sentido, destaco a importância de trabalhar em conjunto com as demais Forças Armadas, Governos dos Estados do Amapá, Maranhão, Pará e Piauí, Prefeituras, Ministério Público, Forças Auxiliares e outras instituições públicas e privadas.

 

COMPARTILHAR

Deixe uma resposta

Seu comentário
Seu nome

Solve : *
21 × 8 =