Uma faina chamada Praticagem

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Você já deve ter ouvido falar no prático, o profissional que auxilia as manobras de navios nos portos. Mas você sabia que antes de uma manobra acontecer é necessário todo um planejamento e coordenação por parte da equipe de praticagem envolvendo os terminais portuários, os rebocadores e o navio?

O serviço de praticagem em síntese é o conjunto de atividades de assessoria ao comandante, requeridas devido às peculiaridades locais que dificultam a livre e segura movimentação da embarcação. Esse serviço é realizado em portos, baías, lagoas, rios e canais onde há tráfego de navios. A principal razão da existência deste serviço é proporcionar maior eficiência e segurança à navegação e garantir a proteção da sociedade e preservação do meio ambiente.

O prático a bordo processa uma série de informações e as repassa em forma de comando para a tripulação do navio. Foto: Alexandre G. Da Rocha.

Em sua maioria, quem admira um navio manobrando em um porto, não faz ideia que há toda uma estrutura por trás do serviço de praticagem, envolvendo o prático, a lancha de praticagem e a atalaia controladora. A atalaia controladora é uma estrutura operacional dotada de profissionais bilíngues preparados para coordenar, controlar e apoiar o atendimento do prático à embarcação. O controlador de tráfego, alocado na atalaia controladora, é responsável por monitorar o tráfego dos navios mercantes no porto, dando-lhes instruções necessárias à manobra.

Ou seja, antes do prático embarcar no navio, o controlador de tráfego já “preparou o campo” verificando o calado do navio, se ele vai precisar de maré positiva, o bordo e o berço de atracação e se todos os parâmetros para manobrar estão dentro do limite estipulado pela Autoridade Marítima (vento, corrente, vagas, rebocadores e visibilidade).

A base da praticagem, que também é uma central de monitoramento e informação, opera 24 horas por dias, sete dias por semana. Foto: Alexandre G. Da Rocha.

Os práticos partem para os navios em lanchas especiais para seu transbordo seguro, munidas de potência, manobrabilidade e a expertise do mestre da lancha, que a encosta no costado do navio em movimento, para que o prático passe da lancha para a escada “quebra peito” da embarcação. Chegando no passadiço do navio e após uma breve explanação com o capitão sobre a sua intensão quanto a manobra, logo é iniciada a faina de praticagem. O prático utiliza de seu conhecimento técnico assessorando o capitão do navio nas particularidades locais e de navegação para guiar o navio. As ordens de manobra ao navio são dadas na língua inglesa (navios brasileiros em português). O prático é a interface navio e rebocador, uma vez que são empregados nas manobras de atracação, desatracação e em alguns portos no fundeio também.

Subir e descer de um navio em movimento com mar agitado não é para qualquer um. Foto: Praticagem Paranaguá.

A figura do prático de navios é bem antiga, remonta ao Código de Hamurabi (Rei da Babilônia), quarenta séculos passados, onde estavam legislados seus deveres, ganhos e penalidades por eventuais insucessos na condução das embarcações. No Brasil, o primeiro serviço de Praticagem foi criado no Decreto de 12 de junho de 1808 com a rubrica do príncipe regente D. João VI.

O prático não é militar ou funcionário público. Ele trabalha de forma autônoma, sem vínculo empregatício com os seus tomadores de serviço, que são os armadores dos navios. Para se tornar prático é necessário prestar concurso junto à Marinha do Brasil, porém não é considerado concurso público, por não ser um cargo dentro da esfera pública. Hoje no Brasil são 643 práticos em 21 zonas de praticagem. Para quem pensa que esse é um trabalho apenas para homens se engana. Mesmo ainda em menor quantidade, há 12 mulheres guiando navios em todo o Brasil, com duas em Itajaí e Navegantes.

A praticagem em Itajaí iniciou seus trabalhos na década de 40, quando o prático Manoel Ezidro auxiliou o navio Trópicos. Em 1997 foi criada a Itajaí Práticos Serviço de Praticagem S/C Ltda., que inicialmente contava com três práticos e três praticantes de prático. Foi quando em 2003, o serviço de praticagem de Itajaí e Navegantes passou guarnecer a Atalaia 24 horas por dia, chegando nos dias atuais com 17 práticos, 7 controladores de tráfego e 4 lanchas.

Vista da base operacional da praticagem de Itajaí e Navegantes. As lanchas nunca param, podendo haver várias no canal em fainas diferentes. Foto: Shipspotting_Itajaí.

Em junho de 2020 a praticagem local atinge seu auge junto ao Complexo Portuário de Itajaí e Navegantes com o início das manobras especiais com navios acima de 306 metros de comprimento. Os práticos passaram por treinamento em simuladores de manobra na Holanda, tendo como instrutores práticos veteranos do Porto de Rotterdam cujo porto já recebe navios acima dos 400 metros. Esse treinamento se fez necessário para a homologação da nova bacia de evolução, pois além das dimensões maiores, os navios agora também passaram a navegar de ré no canal do rio Itajaí-Açu.

Luiz Fernando Nardes

Tecnólogo em Construção Naval pela UNIVALI (2018), Nardes é um entusiasta da área marítima e portuária. Já atuou em terminais portuários em Itajaí e nos últimos 5 anos desempenha a função de Controlador de Tráfego Portuário no serviço de praticagem de Itajaí e Navegantes. A paixão por navios é expressa também em seu perfil Shipspotting_Itajaí, que através da lente de sua câmera não deixa passar nenhum detalhe do que acontece na foz do rio Itajaí-Açu.

Por Portal da Navegação, via Portal Itajaí Naval.

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